29 de setembro de 2023

Um ano difícil para a indústria de máquinas e equipamentos

Um ano difícil para a indústria de máquinas e equipamentos
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O setor de máquinas e equipamentos vem enfrentando conjuntura difícil em 2023, com queda de receita líquida de vendas, do consumo aparente e da carteira de pedidos. No ano, até dezembro, a direção da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), entidade que reúne indústrias do setor, espera uma retração entre 5% e 8%, patamar semelhante ao de 2022. Há, no entanto, duas notícias que atenuam o quadro. A primeira é que 2024 aponta para cenário bem mais favorável. A segunda diz respeito a segmentos que passam ao largo da má fase atual e vêm mostrando boa performance. São os casos de máquinas e equipamentos para logística e construção civil, cujas receitas cresceram 5,5% até julho, de acordo com a Abimaq, e o de movimentação de cargas.

Na movimentação de cargas, a expansão entre janeiro e maio deste ano foi de 8%, segundo a World Integrated Trade Solution (Witz). Os números dizem respeito a empilhadeiras, transpaleteiras, rebocadores e trilaterais.

“Para 2023, esperamos crescimento entre 10% e 15% no volume comercializado no Brasil em relação a 2022”, diz Raphael Souza, gerente comercial da Jungheinrich Brasil. Gustavo Couto, CEO da Vamos, observa o mercado reaquecido neste segundo semestre. “O ano começou um pouco mais frio, por incertezas e pela taxa de juros elevada, mas já há recuperação. Decisões postergadas por causa da alta de preços dos equipamentos e dos juros elevados começam a ser tomadas”, diz. Segundo ele, grandes indústrias que operavam com máquinas mais antigas começam a renovar suas empilhadeiras, que tiveram alta de 20% nos preços em 2022.

Já o cenário projetado pela Abimaq para a indústria de equipamentos destinados à logística e construção civil, que inclui empilhadeiras, esteiras e guindastes, é mais modesto, refletindo a retração da demanda por máquinas rodoviárias, setor que deve fechar o ano com queda de 15%. A razão, segundo Cristina Zanella, diretora-executiva de competitividade, economia e estatística da entidade, está na combinação de dois fatores: interrupção de obras públicas em função da mudança de governo e o alto custo de crédito relacionado aos patamares elevados da Selic.

Para 2024, no entanto, a perspectiva é outra. “Os setores de logística e construção devem melhorar em relação a este ano por conta da retomada de obras e dos investimentos, influenciada pelo PAC. São esperadas novas obras feitas pelas prefeituras, por conta das eleições municipais”, diz. O crescimento nos sete primeiros meses do ano da indústria de equipamentos para logística embute parcela importante das exportações, que, segundo Zanella, cresceram substancialmente no período. No total, as vendas externas do setor aumentaram receitas em 18,6% e volumes em 7,4%. Os números relacionados à renda, no entanto, merecem maior detalhamento, por não atingirem de forma linear todos os tipos de maquinário.

Inovação e tecnologia de ponta viraram questões-chave para a atividade logística, processo acentuado neste ano. “A venda de empilhadeiras elétricas vem crescendo. A eletrificação aumentou, assim como a demanda por veículos automaticamente guiados (AGVs) e a de robôs móveis autônomos (AMRs). É uma evolução”, diz Reinaldo Moura, presidente do Conselho do Instituto de Movimentação e Armazenagem de Materiais (Imam), citando equipamentos de última geração tecnológica. Na prática, tais máquinas elétricas e automatizadas se deslocam por centros logísticos, transportando mercadorias de um ponto a outro, sem presença humana. Neste ano, o mercado brasileiro viu chegar uma nova tecnologia, que é o braço robótico instalado no AGV, capaz de identificar itens que devem ser carregados, além de apanhar e depositar o produto na estação certa. Tudo automatizado. “Está sendo uma revolução. Há fila de espera para aquisição desses equipamentos”, diz Moura.

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A alemã Jungheinrich, fabricante e desenvolvedora de veículos autônomos, é uma das empresas que têm projetos com grupos brasileiros, especialmente os dos setores de cosméticos e de operação logística, para importação dos novos equipamentos. Ainda não houve negociação, mas a demanda, segundo o gerente comercial da empresa, é alta. Robôs trabalham 24 horas por dia, sete dias por semana, com luz apagada. Tradução: mais produtividade, menos tempo, mais eficiência e menos custo operacional. A desvantagem ainda está no preço elevado dos equipamentos.

Outra característica do ano é o crescimento de 44% de máquinas elétricas no mercado doméstico, de acordo com Souza. Isso, com uma vantagem adicional: as novas trazem novidades que ampliam produtividade e segurança. Saem as antigas empilhadeiras e entram as trilaterais e selecionadoras verticais de pedidos elétricos. Em paralelo, também chegam aos clientes equipamentos mais simples e acessíveis. “Temos dois efeitos: a migração de empilhadeiras a combustão para outras elétricas e mais complexas e o crescimento de equipamentos elétricos, porque oferecemos opção barata e de entrada para a indústria e operadores logísticos”, diz. O mercado de empilhadeiras elétricas no Brasil, até maio, representava 57% do total da frota nacional, segundo a Witz.

A marca alemã lançou neste ano equipamentos com tecnologia de automação, como a de pequenos robôs que andam embaixo de estruturas, além de armazéns 100% automatizados. São máquinas que ganharam mercado a partir do aumento de custo do metro quadrado de centros de distribuição, levando clientes a verticalizar operações. “Por isso acontece esse aumento da demanda de máquinas semiautomatizadas, que chegam até 18 metros de altura”, diz.

Outra empresa com foco em inovação, a Store Automação, fornecedora de produtos e serviços de tecnologia para a área de logística, passa por situação semelhante. A busca do mercado, segundo Wagner Rodrigues, CEO da companhia, é cada vez mais por inovação. “É nisso que as empresas estão investindo, nos procuram nessa linha, não só em equipamentos, mas também em software, para terem melhor gestão, com mais mecanização e mais inteligência”, diz. Robôs que levam e trazem mercadorias para os locais corretos e inteligência artificial para gestão de dados e monitoramento tornam a movimentação de carga cada vez mais automatizada. Se no passo anterior, de semiautomação, a economia de tempo era de 40%, quando se evolui para equipamentos mais avançados, como transelevadores, a melhoria de tempo saltou para 70%, com precisão de 99,9%.

A Thermo King, fabricante de sistemas de controle de temperatura de transporte para caminhões e reboques, também adota a agenda da inovação tecnológica como forma de fortalecer seu modelo de negócios. Sistemas de controle de refrigeração que permitem transporte de produtos com necessidade de temperaturas diferentes levaram o setor de fármacos a se tornar um dos principais clientes da companhia. “Uma grande empresa de São Paulo, que era zero refrigerada em medicamentos, adquiriu cem carretas refrigeradas para transporte integral de remédios. O setor vai continuar puxando a demanda por um período”, diz Claudio Biscola, gerente de vendas América do Sul da Thermo King.

Em relação ao mercado como um todo, o ano foi marcado pela retração dos equipamentos de grande porte, em função do aumento de custos para investimentos. Diante disso, a Thermo Kink voltou o foco para a oferta de equipamentos intermediários, que vem crescendo em função da maior demanda do setor de fármacos. “A palavra de ordem é crédito. As transportadoras deram uma segurada por causa do custo do financiamento”, diz. Para lidar com a nova realidade, a empresa lançará produtos refrigerados de menor porte e mais versáteis, podendo ser utilizados tanto na frente do caminhão ou da van quanto no teto, com 50 kg a menos. Em relação a 2024, as projeções do executivo para o setor são conservadoras, com crescimento orgânico entre 3% e 4%, à espera da queda da taxa de juros.

Já o cenário de locação de máquinas e equipamentos destinados à logística e intralogística é bem mais positivo, em decorrência do alto custo do financiamento para aquisições. Três grandes nomes que atuam no setor comemoram resultados. A Locar Guindastes e Transportes Intermodais, especializada em movimentação de cargas, ampliou em 1,1 mil sua frota de plataformas elevatórias neste ano, totalizando 2,5 mil. “O mercado está muito aquecido nesse segmento, impulsionado pela demanda da energia eólica, mineração e infraestrutura”, diz Marcello Augusto Mari, diretor comercial da Locar.

A Vamos – uma das maiores empresas de locação de caminhões, máquinas e equipamentos do Brasil, dona de uma frota de cerca de 45 mil veículos, incluindo mais de 6 mil empilhadeiras – vem dobrando todos os anos o número de clientes. “Hoje, temos dez vezes mais clientes do que tínhamos em 2019”, diz Couto.

A Simak Rent, criada no início do ano pelo grupo Manserv, está investindo R$ 400 milhões neste ano e conta com uma frota de 1,5 mil máquinas, apostando na expansão do mercado de locação. “Temos previsão de crescimento de 15% até 2030. O mercado ainda é pouco explorado. Temos muitos competidores, mas com participação pequena”, diz Anderson de Abreu, CEO da empresa.